29 jan, 2018
A igreja que sobrevive a incêndio que há 50 anos queima o subterrâneo de cidade americana

Centralia é uma cidade da Pensilvânia, nos EUA, que foi “condenada à morte” desde que um incêndio começou – e nunca mais parou – a queimar no subsolo.

A igreja que sobreviveu ao incêndio foi erguida sobre uma pedra, em Centralina, na Pensilvânia (EUA) Foto: BBCBrasil.co
A igreja que sobreviveu ao incêndio foi erguida sobre uma pedra, em Centralina, na Pensilvânia (EUA)
Ao fundo, se destaca na paisagem coberta pela neve.

A cidade está aos pés de montanhas de onde se extrai carvão. No passado, ela estava coberta por casas e jardins. E pelo menos mil moradores. Hoje, restou apenas uma igreja, poucas casas e, segundo a última contagem, seis pessoas.

Nos mapas, as estradas têm até nomes. Mas quem caminha por lá só encontra vias fantasmas sem placas, silenciosas, abandonadas.

Nessa paisagem, a única coisa que se destaca no horizonte é uma igreja branca com a cúpula azul. A congregação deixou o local, mas a igreja católica ucraniana ficou inteira.

John Mayernick nasceu e cresceu em Centralia quando o local ainda era vivo e vibrante. “Todo mundo cuidava um do outro”, recorda.

Em 27 de maio de 1962, tudo mudou na cidade. Um fogo espalhou da superfície de uma mina para o subsolo e até hoje continua queimando, por causa do carvão.

Não se sabe como o fogo começou, mas a explicação mais plausível é, de acordo com autoridades locais, que trabalhadores atearam fogo numa lixeira.

Mais de US$ 7 milhões foram gastos para tentar conter o fogo. Mas o esforço e o investimento foram em vão. Em 1983, o Congresso americano aprovou um pacote de US$ 42 milhões para realocar os moradores da cidade.

Muita gente acredita que não há mais fogo ou que ele não represente perigo. Mas autoridades afirmam que ele pode queimar por mais de cem anos, por causa do material de fácil combustão encontrado no subsolo da região.

Em 1983, quando o Congresso decidiu financiar a remoção dos moradores e comerciantes, Mayernick já havia saído de Centralia. Mudou-se para Numidia, não muito longe de lá. Mas ele continuou indo à igreja da cúpula azul, onde foi batizado.

“Essa era a nossa igreja”, diz ele, olhando para os vitrais. “Todo mundo da minha família foi batizado e fez a primeira comunhão aqui. Alguns foram até enterrados “, diz, emendando que pretende continuar frequentando o local.

Uma igreja em um lugar sem pessoas precisa de bases profundas e fortes, ou se desintegra. A família de Joanne Panko, de 67 anos, é uma dessas bases que mantêm a igreja aberta. Ela também foi batizada na igreja. A mãe dela também. A avó também assistia às missas lá, depois de ter se mudado da Europa.

Em 1987, com as brasas consumindo o subsolo da cidade, Joanne trocou Centralia por Bloomsburg, a 19 km. Mas nem assim ela pensou em procurar outra igreja.

A família de Mary Anne Mekosh é outra que tem uma longa história com o templo. Os pais e avós dela também frequentavam o local. Depois do ensino médio, ela foi para Washington D.C., mas agora mora perto de Centralia e voltou a assistir a missas no local.

Mary, de 68 anos, tem orgulho da igreja. “Hoje a situação (da comunidade) está estável e queremos que ela continue”, diz, sem esconder a tristeza de ver a cidade praticamente fadada à morte.

“Não sou do tipo de pessoa que odeia o governo ou acha que ele é incompetente. Só não entendo como deixaram isso acontecer. Eu realmente acredito que o fogo poderia ter sido combatido”, avalia.

Até os anos 1980, Centralia estava sendo apagada do mapa, assim como uma foto velha. Quando o fogo começou, havia cinco igrejas na cidade. Elas foram desaparecendo. Em 1986, a igreja ucraniana, que havia sido erguida em 1911, quase se foi.

Uma das poucas casas que ainda estão de pé em Centralia

“Foi nosso último suspiro”, diz o padre Michael Hutsko. “A igreja teria sido derrubada, e tudo o que teria restado era o cemitério”.

Mas, enquanto o Estado supervisionava a burocracia par emitir a autorização que selaria o futuro de Centralia, o arcebispo Stephen Sulyk ordenou que algo fosse feito para que a igreja não fosse ao chão.

“Então eles perfuraram e encontraram uma rocha sólida (em vez de carvão)”, diz o padre Hutsko. “Isso é tão bíblico”, diz citando um trecho da Bíblia que diz “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.

Assim, a construção foi preservada e, com a ajuda de famílias como os Mayernick, os Panko e os Mekoshe, a igreja continua cuidando de Centralia.

Em novembro de 2015, o líder da igreja católica ucraniana, o arcebispo Sviatoslav Shevchuk, visitou Centralia durante uma viagem aos EUA. Ele ficou tão impressionado com a igreja, que a transformou em um lugar de peregrinação.

Uma carta emoldurada na parede da igreja, com um selo dourado, confirma o reconhecimento.

Em agosto de 2016, cerca de 600 visitantes de diferentes lugares dos EUA foram ao local. Outra visita foi organizada no ano passado e a próxima será no último domingo de agosto de 2018.

“Convidamos pessoas mundo afora a se juntar a nós”, diz o padre Hutsko. “Nós realmente queremos estender (o convite) – não é só para católicos de origem ucraniana”, salienta.

O padre Hutsko assumiu a paróquia de Centralia em agosto de 2010, mas diz que conhecia o local desde criança. “Fui para o seminário em 1976 com um integrante da paróquia”. “Eu vinha visitá-lo e a família dele tinha uma mercearia em casa”, recorda, dizendo que sempre achou o lugar especial.

'A gente perdeu a cidade, mas não perdemos a igreja', diz o padre HutskoFoto: BBCBrasil.com
‘A gente perdeu a cidade, mas não perdemos a igreja’, diz o padre Hutsko

Depois da missa de domingo, o padre Hutsko e os fiéis fazem uma confraternização com bebidas e comida nos fundos da igreja. “Não há nenhum outro lugar para ir”, diz, sorrindo.

Os antigos vizinhos se aproximam do café, enquanto crianças correm entre os bancos.

“A gente perdeu a cidade, mas não perdemos a igreja”, diz o padre, que também é responsável por outra paróquia, em Mount Carmel.

Ele está convencido de que a igreja de cúpula azul na cidade onde o subsolo queima vai ter vida longa. “Vai mais longe do que eu vou viver”, diz.

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