10 jul, 2018
MÚSICA Há 60 anos, Bossa Nova transformava música brasileira
 

No dia 10 de julho de 1958, exatos 60 anos atrás, João Gilberto entrou no estúdio da gravadora Odeon. Saiu com “Chega de Saudade”.

Roberta Pennafort

Julho de 2018. João Gilberto está diante da televisão, assistindo com entusiasmo aos jogos da Copa da Rússia, torcedor entusiasmado de futebol que é. A aposta é de Zuza Homem de Mello, jornalista, pesquisador musical e interlocutor do pai da Bossa Nova há mais de 40 anos.

Em julho de 1958, vencido o Mundial da Suécia pela seleção de PeléGarrincha Nilton Santos, o músico baiano teve outra ocupação: no dia 10 daquele mês, exatos 60 anos atrás, ele entrou no estúdio da gravadora Odeon, no centro do Rio, para mudar a música brasileira de maneira indelével com apenas três minutos de som.

Era a gravação do compacto com Chega de Saudade Bim Bom – o cultuado marco inicial da Bossa, tratado sobre beleza e acuidade, pela voz e o “violão dissonante” únicos de João, então com 27 anos recém-feitos. O 78 rpm foi lançado pouco depois de Canção do amor demais, de Elizeth Cardoso; este, o primeiro LP a conter a “batida diferente” de João, que tocou em duas faixas (a própria Chega de Saudade Outra Vez) chamado por um Tom Jobim impressionado com seu “novo samba” (além do compositor das músicas, com Vinicius de Moraes, Tom era o produtor).

João Gilberto toca em apresentação em São Paulo, no ano de 1965
João Gilberto toca em apresentação em São Paulo, no ano de 1965

Foto: Arquivo / Estadão Conteúdo

Como a bossa, o compacto torna-se sexagenário sem ter desbotado, acredita João Donato, precursor de tudo e todos. “A bossa não envelheceu, vai ser admirada pelo mundo para sempre. É como Debussy, que morreu há cem anos. São só números”, diz o compositor, desde fevereiro de 2017 à frente de uma residência artística na Sala Baden Powell, em Copacabana, vertida em Casa da Bossa e com shows de bossa, jazz e MPB de alta qualidade.

“Tem sido uma experiência trabalhosa, nesse mundo de teatros se acabando, mas muito prazerosa. Existe espaço para a bossa nova nesse tempo em que faltam ternura, amor e paz. O espaço idealizado por ela segue o ideal”.

Zuza Homem de Mello lembra que, na visão de TomDesafinado, parceria com Newton Mendonça, é que continha os elementos formadores da bossa, e não a composição com Vinicius de Moraes à qual é comumente atribuída sua certidão de nascimento.

“Tom considerava que Chega de Saudade tinha uma estrutura mais de choro que de samba, ao passo que Desafinado, gravada exatamente quatro meses depois, no dia 10 de novembro de 1958, já inova também no aspecto da letra”, conta Zuza, autor de Eis aqui os bossa nova (2008) e Copacabana: a trajetória do samba-canção (2017), entre outros livros sobre a música do Brasil.

Chega de Saudade não tem grande evolução em termos de letra. Foi uma composição feita para o álbum da Elizeth, de canções. Com Desafinado, deu-se o reboliço”, relembra. “Havia uma indução a achar que João era desafinado, tanto que ele hesitou a gravar. Era mesmo o que as pessoas sem percepção auditiva pensavam.”

Sobre o João de hoje, de 87 anos e interditado pela filha, Bebel Gilberto, por problemas de saúde, Zuza não tem dúvidas: “Tenho notícias fidedignas de que ele está muito bem, em ótimo estado físico, cantando e tocando. A gente tem que ficar feliz, ele está fazendo o que gosta”.

Na segunda leva de gravações de João, junto com Desafinado, ele interpretou Ho-bá-lá-lá, de sua autoria, como Bim Bom. Em janeiro e fevereiro de 1959, registraria Brigas, nunca maisLobo boboSaudade fez um sambaMaria ninguémRosa MorenaMorena boca de ouroÉ luxo só Aos pés da cruz, e estaria completo o seminal Chega de Saudade, LP que traz na capa um João enfadado e na contracapa um Tom derramado.

As palavras do compositor-produtor entrariam para a história da Bossa: “Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele”.

Espalhado pelo mundo por seus bastiões e remanescentes, DonatoRoberto MenescalCarlos Lyra Marcos Valle, e por vozes femininas como Leny Andrade Paula Morelenbaum, o repertório da bossa nova não está parado no tempo. “Canto canções que gravei nos meus primeiros discos (nos anos 1960), para diferentes plateias e com o mesmo frisson. Não dá nem para nomear. São eternas. Eu as reverencio hoje e daqui a 20 anos”, diz Leny, que já levou seu “scat singing” a 55 países.

A exposição Bossa 60, passo a compasso, que o Espaço Cultural BNDES, no centro do Rio, abre ao público dia 18, cria experiências sonoras para os visitantes viajarem pelas transformações que a bossa trouxe em termos de ritmo, melodia, harmonia e interpretação.

Fotos da época, de artistas fundamentais da bossa, como Johnny AlfNara Leão Ronaldo Bôscoli, foram pinçadas dos acervos pessoais de MenescalLyraBebel GilbertoInstituto Tom Jobim e outras instituições. A produtora é Valéria Machado Colela e o curador é o crítico musical Tárik de Souza.

“A ideia foi dar um panorama o mais abrangente possível do movimento de 60 anos atrás, que mexeu nas estruturas da MPB, desvelando uma nova forma de tocar, cantar e compor”, explica Souza. “No quesito interpretação, há o contraste de gravações de músicas pelos cantores de antes e depois, como Aos pés da cruz, na gravação inicial de Orlando Silva, depois na de seu discípulo João Gilberto, e adiante na versão do jazzista Miles Davis. Trata-se do exemplo de um samba tradicional, que, a partir da ressignificação da interpretação bossa nova, acabou projetando-se no ambiente do jazz.”

Para o curador, ainda há muito o que ser dito sobre a bossa. “A bossa já foi espanto e surpresa, moda e declínio. Mas ela tem uma profundidade estética que permite sempre novos mergulhos e alumbramentos. É um movimento estético apto a muitas releituras e apropriações. Tem a maleabilidade de atingir o rap (À procura da batida perfeita, de Marcelo D2) e sensibilizar um proto-punk farpado, como Iggy Pop, que gravou How insensitive, versão de Insensatez, a romântica canção de Tom Jobim Vinicius de Moraes. Como cantou recentemente o Caetano Veloso, ‘a bossa nova é f…'”.

SEIS DISCOS CLÁSSICOS

Canção do Amor Demais (1958)

Elizeth Cardoso canta Tom e Vinicius. João Gilberto participa.

Amor de Gente Moça (1959)

Sylvia Telles fez LP dedicado a Tom, já consagrado como artista.

Bossa Nova (1960)

Estreia de Carlos Lyra, traz o clássico ‘Maria Ninguém’.

Rapaz de Bem (1961)

O precursor Johnny Alf canta ‘Rapaz de Bem’ e ‘Ilusão à Toa’.

Getz/Gilberto (1964)

Stan Getz e João Gilberto internacionalizam a bossa. Tom Jobim e Astrud Gilberto participam.

Nara (1964)

Utilizando a estética da bossa nova, a “musa” Nara Leão canta sambas de morro.

 TNM

CULTURA (WWW.EXPRESSO.PT)

Silêncio! Isto é bossa nova

João Gilberto, o pai da bossa nova, faz hoje 80 anos. Recorde o texto do Atual de 2008sobre os 50 anos do género musical que mudou a história da música brasileira(Veja os vídeos no fim do texto)

NELSON MOTTA* (WWW.EXPRESSO.PT)

Como o baiano João Gilberto inventou a bossa nova e mudou Copacabana, o Brasil e o mundo continua a ser um mistério. 50 anos depois é preciso tornar a agradecer aquela batida de violão e a pequena-grande voz de João.

Há exactos 50 anos, um cantor, uma canção e um disco mudariam a história da música brasileira e tornariam mais delicada e elegante a música do mundo. Com a revolucionária gravação de “Chega de Saudade”, em 1958, João Gilberto dava forma e conteúdo à bossa nova, inventando um novo ritmo e uma nova forma de cantar e tocar violão. O resto é história, que, como um rio de muitos afluentes, desagua no mar de nossa memória pessoal e colectiva.

Com o sucesso de João revelavam-se a mestria de Antonio Carlos Jobim e do poeta Vinicius de Moraes, e o talento de jovens compositores como Carlos Lyra e Roberto Menescal, que estavam criando a nova música. De 1959 a 1962, João Gilberto lançou três LP históricos e a bossa nova virou moda.

Os jovens enchiam as academias de violão de Copacabana para aprender a nova batida e as músicas que seriam a trilha sonora dos Anos JK, quando o Brasil, sob o governo liberal, progressista e optimista de Juscelino Kubitschek, depois de ganhar pela primeira vez a Copa do Mundo de futebol, na Suécia, viveu um ciclo de progresso e desenvolvimento nunca visto, com a construção de Brasília em apenas quatro anos, a industrialização, a televisão, as novas estradas e fábricas: os brasileiros apaixonavam-se pelo futuro.

Todos queriam surfar na onda do sucesso da bossa nova. A publicidade e a imprensa adoraram o rótulo. JK foi chamado, com justiça, de “Presidente Bossa Nova”. Surgiram o carro bossa nova, o apartamento bossa nova, o fato bossa nova, com um casaco e duas calças. Tudo virou bossa nova no Brasil provinciano, deslumbrado pelo futuro. Velhos cantores da Rádio Nacional gravavam bossa nova para tentar apanhar boleia no trem do sucesso. Até o veterano Vicente Celestino lançou a sua versão, operística e bombástica, da prosaica “O Pato”, que o minimalismo de João Gilberto transformara em clássico bossa-novista.

Em busca da reciclagem redentora, tudo o que havia de mais velho afirmava-se bossa nova. Quando até a antiga União Democrática Nacional, partido conservador, moralista e golpista, de oposição ferrenha ao liberal JK, tinha a sua “bancada bossa nova” na Câmara dos Deputados, era o sinal definitivo de que a bossa nova tinha acabado no Brasil: se tudo era bossa nova, então nada mais era.

Em 1962 ninguém queria mais ouvir, falar e ainda menos cantar bossa nova. A nova geração, de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, engendrava a futura MPB, o país fervia com os esquerdistas Jango Goulart e Leonel Brizola no poder, as forças políticas exacerbavam-se, havia grande agitação nas ruas, a economia soçobrava: não havia mais clima para uma música leve e sofisticada como a bossa nova. A nova música brasileira devia ser guerreira, participativa, politizada, falaria de favelados e pescadores, camponeses e operários, resgataria artistas populares marginalizados pela bossa nova, que seria denunciada como sub-jazz, ao serviço do imperialismo cultural americano.

Mas, a essas alturas, os grandes músicos do jazz americano já haviam descoberto e se encantado com a música moderna de João Gilberto, Antonio Carlos Jobim e Sérgio Mendes, que se estabeleceram em Nova Iorque após triunfarem no lançamento “oficial” da bossa nova nos Estados Unidos, em um histórico e caótico concerto no Carnegie Hall, em 1962. Já antes, a bossa nova havia fascinado gigantes do jazz como Miles Davis, Stan Getz, Gerry Mulligan e Bill Evans, que logo começaram a gravar o novo repertório e a convidar grandes músicos brasileiros a participar de seus discos, com maravilhosa repercussão na crítica mais exigente e entre o público jazzista.

Em 1964, enquanto o Brasil, após caótico período político e económico, mergulhava nas trevas da ditadura militar, a bossa nova consagrava-se nos Estados Unidos, com a conquista das duas categorias mais importantes dos prémios Grammy para o single “The Girl from Ipanema” e o álbum Stan Getz and João Gilberto, como “melhor canção” e “melhor disco”, superando gente como os Beatles, os Rolling Stones, Frank Sinatra e Elvis Presley, no auge do prestígio e da popularidade.

Mas, vitimada pela radicalização política, a grande conquista passou quase despercebida. Nos bares de Ipanema, os jovens esquerdistas rosnavam: “Venderam-se ao imperialismo americano”. Mas o resto do mundo começava a apaixonar-se por aquela música, aquela garota e aquele ritmo, que evocavam um país de sol, praias e sonhos: um amor que se tornaria eterno.

O resto é uma história de glória e permanente transformação, que continua sendo escrita, digitada, por todos os artistas dos mais novos estilos e gerações que se encantam com a bossa e a fazem sempre nova.

JOÃO E NÓS

Até ouvir “Chega de Saudade” com João Gilberto eu não me interessava por música. Em 1958, tudo o que se ouvia no rádio e nas poucas TVs a preto e branco era muito chato para adolescentes de classe média de Copacabana: era a música dos nossos pais. Depois de João foi como se alguém acendesse a luz e aumentasse o som (ou melhor, diminuísse), tornando a música e a letra mais leves, mais suingadas, mais elegantes e modernas. Tudo o que ele cantava parecia novo, com a sua nova batida, inconfundível, síntese do samba. A sua música era a trilha sonora perfeita para o estilo de vida alegre e liberal do Rio de Janeiro que se modernizava. João Gilberto era o nosso pastor e nada nos faltaria. Foi ele que inspirou e levou a minha geração (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, João Bosco, Roberto Carlos, e até mesmo Tim Maia e Jorge Benjor) a mergulhar num universo musical que não era mais o da Rádio Nacional, mas tinha um novo sol, mais brilhante, mais discretamente brilhante, com um alto teor de magnetismo e radioactividade.

Todos os que um dia foram tocados por sua música sabem (como Miles Davis, Bob Dylan ou Madonna e tardiamente Eric Clapton), como qualquer músico brasileiro de qualquer estilo ou geração sabe, que depois de ouvi-lo tudo soa (mesmo os melhores sons) mais barulhento, excessivo, áspero. Não que seja pior, mas certamente é menos suave, macio e delicado. Até Chet Baker soa assim depois de João.

De uma pequena cidade do interior da Bahia para – com a sua pequena voz e grande violão – mudar a música do planeta, como o genial criador da maior contribuição cultural (uma das raras) que o Brasil deu ao mundo nos tempos modernos, conhecida como bossa nova, mas na verdade uma criação original de João Gilberto. Sem a sua batida de violão não existiria bossa nova, é a sua base e coração.

Não há, dificilmente haverá, artista mais influente na história da música brasileira moderna. Sim, também Antonio Carlos Jobim, mas ninguém o influenciou mais do que João Gilberto. Como ninguém cantou Antonio melhor que João. O cineasta Glauber Rocha, que amava e respeitava João Gilberto, atribuía ao seu estilo intimista a “feminização” da música brasileira moderna: depois dele todos os homens passaram a cantar mais baixo e mais suavemente. Como Chico, Caetano, Gil, Roberto Carlos, todos. Em contrapartida, segundo Glauber, depois dele as mulheres passaram a cantar com mais força e “virilidade”, como Elis Regina, Maria Bethânia e uma sucessão de cantoras vigorosas e dramáticas, de vozes potentes e grande expressividade, numa linhagem que prossegue com Alcyone, Simone e Ana Carolina. Glauber adorava uma polémica, João gosta de harmonia e silêncio. Dois baianos geniais, Apolo e Dionísio na Terra do Som.

Em João a revolução é permanente, “like a rolling stone”. A prova, o seu disco “Voz e Violão”, vencedor do Grammy de 2001, com as suas interpretações definitivas de “Desafinado” e “Chega de Saudade”, 40 anos depois e, por qualquer critério ou conceito, musicalmente superiores às históricas versões originais, que serão sempre históricas, mas foram superadas pelo génio criador de uma obra em movimento permanente. É um espanto. Bem suave, mas sempre espanto.

Como Maria Callas ou Frank Sinatra, não interessam tanto as canções que ele canta, mas como as canta. A luz de João é o seu mistério, poucos personagens da nossa história musical terão uma colecção de lendas mais abundantes em torno do seu mito. Mas todos que o conhecem sabem: é um dos homens mais inteligentes e irónicos de que se tem notícia. Assim como sua música, sua inteligência e seu humor são especiais, e seu estilo de vida, recluso (mas de frente para o mar) e em trabalho permanente de aperfeiçoamento de sua obra, é muito especial, não permite especulações e estimula o mistério. Então, o melhor presente para ele é deixá-lo em paz.

Mas nem todas as palavras já escritas sobre João Gilberto, por alguns dos maiores e mais influentes artistas brasileiros, não só músicos mas de diversos campos de produção, valem juntas ouvir apenas uma de suas músicas: por exemplo, a nova versão de “Desafinado”. Você vai entender tudo. Silêncio. Som na caixa, bem baixinho.

* Nelson Motta (n. 1944) é jornalista, escritor, agitador cultural e peça-chave na música brasileira desde os anos 60. Escreveu (e escreve) nos jornais, fez TV, rádio e lançou novos artistas, como foi o caso de Marisa Monte. Produziu Elis Regina, Gal Costa e Daniela Mercury. Trabalhou nas multinacionais do disco e é romancista de êxito. Contudo, os seus livros mais bem sucedidos são memórias da música e dos músicos brasileiros. “Noites Tropicais” e “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia” continuam inéditos em Portugal.

Texto publicado na revista Atual de 5 de julho de 2008

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