13 out, 2019
Irmã Dulce: de ‘anjo bom da Bahia’ a santa no Vaticano

Freira baiana Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes (1914-1992) foi canonizada pelo papa Francisco neste domingo (13/10) e se tornou a primeira santa nascida no Brasil.

Com dois milagres reconhecidos pelo Vaticano, a freira baiana Irmã Dulce (1914-1992) foi canonizada neste domingo (13/10) pelo papa Francisco, tornando-se a primeira santa nascida no Brasil. Agora, ela passa a ser chamada Santa Dulce dos Pobres.

A solenidade ocorreu na praça de São Pedro, no Vaticano, em frente à basílica de mesmo nome e diante de milhares de fiéis, muitos brasileiros, e autoridades.

Como de praxe, a missa teve uma liturgia específica para canonizações.

A canonização – a confirmação final da Santa Sé para que um Beato seja declarado Santo -, é um processo complexo que requer a aprovação final do papa e acontece no Vaticano, diferentemente da beatificação, que pode ser no lugar de origem do religioso.

Além da Irmã Dulce, foram canonizados o britânico John Henry Newman, a italiana Giuseppina Vannini, a indiana Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan e a suíça Marguerite Bays.

O processo de canonização da brasileira foi o terceiro mais rápido da história da Igreja Católica, atrás apenas do papa João Paulo 2º (1920-2005) e da Madre Teresa de Calcutá (1910-1997).

Autoridades brasileiras estavam entre os presentes na cerimônia. O Brasil foi representado pelo vice-presidente, o general Hamilton Mourão, depois que o presidente Jair Bolsonaro alegou problemas de agenda para não viajar a Roma.

Participaram da comitiva oficial um total de 14 pessoas, incluindo os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, o procurador-geral da República, Augusto Aras, e o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM).

Galinheiro onde Irmã Dulce atendia doentes tornou-se uma associação de obras sociais
Galinheiro onde Irmã Dulce atendia doentes tornou-se uma associação de obras sociais

Foto: Acervo Osid / BBC News Brasil

Aptidão para caridade

Conhecida como “anjo bom da Bahia”, Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes nasceu em 26 de maio de 1914, em Salvador. Filha de uma família de classe média, perdeu a mãe aos 7 anos, tendo sido criada pelo pai junto com mais quatro irmãos e irmãs.

Desde cedo, já demonstrava aptidão para a caridade e, ainda na adolescência, dava comida e fazia curativos em pessoas em situação de rua na porta de casa, em Nazaré, na região central da capital baiana.

Apaixonada por futebol e torcedora do Esporte Clube Ypiranga — time da classe popular e de enorme sucesso na Bahia no início do século XX —, Maria Rita formou-se no magistério em dezembro de 1932.

Dois meses depois, realizou seu grande sonho: entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em São Cristóvão (Sergipe).

Consagrada freira em agosto de 1933, adotou o nome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe. Dali, retornou à cidade natal, onde construiu sua trajetória de dedicação aos mais pobres.

Em 1932, Irmã Dulce entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus

Em 1935, ela deu início a seu trabalho assistencial em comunidades carentes, sobretudo nos Alagados, conjunto de palafitas que havia na Baía de Todos os Santos, no bairro de Itapagipe, de perfil operário.

Após criar um posto médico para moradores da região, fundou em 1936 a União Operária São Francisco — primeira organização operária católica do Estado, que deu origem ao Círculo Operário da Bahia.

A partir de então, a freira passou a recolher doentes pelas ruas de Salvador, especialmente na região da Cidade Baixa. Durante mais de uma década, ocupou diversos espaços da cidade com estes enfermos, tendo de sair após sucessivas expulsões.

Consagrada freira em agosto de 1933, adotou o nome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe
Consagrada freira em agosto de 1933, adotou o nome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe

Foto: Acervo Osid / BBC News Brasil

Do galinheiro ao hospital

Até que, em 1949, sem ter onde alojar 70 doentes, Irmã Dulce conseguiu autorização da sua superiora e ocupou um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio, do qual era integrante.

Sem pudor de pedir doações por todos os cantos da capital baiana, Irmã Dulce foi expandindo sua ocupação a partir do galinheiro e, em 1959, inaugurou no mesmo local a Associação Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). No ano seguinte, já estava erguido o Albergue Santo Antônio — que anos depois daria lugar ao hospital de mesmo nome.

Franzina, mas cheia de energia, a freira batia em todas as portas — do pequeno comerciante ao grande empresário. Assim, criou relações nos mais diversos espectros sociais e políticos.

“Não entro na área política, não tenho tempo para me inteirar das implicações partidárias. Meu partido é a pobreza”, disse em certa ocasião.

Assim, conseguia manter entre os doadores das Osid nomes como o do empresário Mamede Paes Mendonça, do banqueiro Ângelo Calmon e dos ex-governadores da Bahia Lomanto Júnior, Juracy Magalhães e Antônio Carlos Magalhães.

O ex-presidente José Sarney, que assistiu à cerimônia deste domingo, também era seu fiel doador e, em 1988, chegou a indicar Irmã Dulce para o Prêmio Nobel da Paz.

A freira morreu no dia 13 de março de 1992, aos 77 anos, no mesmo quarto do Convento Santo Antônio em que dormiu por mais de cinco décadas.

O processo para sua canonização foi iniciado em 2000, oito anos após a morte. Com a confirmação de seu primeiro milagre – suas orações teriam feito cessar uma hemorragia em uma mulher do Sergipe após dar à luz seu segundo filho, Irmã Dulce foi beatificada em 2011, o primeiro passo para que se tornasse santa.

Neste ano, foi reconhecido seu segundo milagre – depois de 14 anos convivendo com uma cegueira causada por um glaucoma, um homem voltou a enxergar em 2014.

Papa Francisco canonizou cinco religiosos, incluindo Irmã Dulce
Papa Francisco canonizou cinco religiosos, incluindo Irmã Dulce

Foto: AFP / BBC News Brasil

Atendimento gratuito

Hoje, a entidade criada por Irmã Dulce é um dos maiores organismos de saúde do Brasil e oferece atendimento 100% gratuito, mantendo-se por meio de repasses do Sistema Único de Saúde (SUS), convênios estatais, venda de produtos e doações de empresas e pessoas físicas.

Há, no entanto, uma discrepância entre a receita que chega pelos repasses do SUS e as despesas geradas pelos atendimentos. Por isso, somente em 2018, o balanço das Osid foi fechado com um prejuízo de aproximadamente R$ 11 milhões.

“O ano passado foi bem difícil. As doações são o que nos socorre e ameniza um pouco a situação”, diz Sérgio Lopes, assessor corporativo da entidade. Segundo ele, as doações correspondem a 5% da receita.

De janeiro a agosto deste ano, apontam os relatórios das Osid, o prejuízo da operação ficou em R$ 5,2 milhões, com estimativa de chegar perto de R$ 8 milhões até dezembro.

“Nossa expectativa é ir diminuindo gradativamente esse prejuízo com o aumento de repasses e doações, especialmente com a canonização. Já percebemos esse movimento após o anúncio do Vaticano. Tem gente que não pode doar dinheiro, mas oferece trabalho voluntário, prestação de serviços. Dizemos sempre que o maior milagre de Irmã Dulce é este complexo, que só fez crescer mesmo após sua morte.”

Anualmente, as Osid realizam cerca de 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais na Bahia, somando o complexo em Salvador e unidades públicas de saúde geridas pela organização no interior do Estado.

No local onde havia o antigo galinheiro, hoje fica uma praça de convivência do Hospital Santo Antônio, que realiza mais de 2 mil atendimentos por dia e 12 mil cirurgias anuais. Ali, as estruturas erguidas por Irmã Dulce seguem ativas ao lado de unidades recentes, como a de Alta Complexidade em Oncologia.

Neste mesmo complexo, trabalham 3 mil pessoas, incluindo 300 médicos, além de cerca de 300 voluntários.

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