Mordomias com dinheiro público

O ministro Alexandre de Moraes já determinou, inclusive, que a empresária forneça documentos que comprovem os serviços prestados pela agência ao PTB.

IstoÉ

ABENÇOADA Graciela Nienov caiu nas graças de Roberto Jefferson, a quem vê como uma figura paterna Divulgação

© Divulgação ABENÇOADA Graciela Nienov caiu nas graças de Roberto Jefferson, a quem vê como uma figura paterna Divulgação
TNM/Por Ricardo Chapola

Um dos alvos centrais do inquérito das milícias digitais que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) é o PTB. O antigo partido de Getúlio Vargas se transformou em uma máquina de malfeitos. Além de ser investigada por usar dinheiro público para fazer ataques ao Judiciário e ao Congresso, mediante fake news, a sigla é acusada na Justiça de ter desviado boa parte do que recebe do Fundo Partidário (R$ 18,7 milhões em 2020) para custear as regalias da atual presidente da legenda, Graciela Nienov, de 39 anos, que assumiu o cargo desde que Roberto Jefferson deixou a presidência após ter sido preso, em agosto.

Documentos aos quais ISTOÉ teve acesso revelam que a dirigente petebista leva uma vida para lá de confortável, às custas do partido, com direito a um salário de quase R$ 30 mil por mês e almoços de marajá. Até o aluguel da mansão onde ela mora, com cinco suítes e piscina com hidromassagem, no valor de R$ 12.900, é pago com recursos da União transferidos à organização.

O tratamento contra obesidade feito por ela, que levou à redução do estômago (cirurgia bariátrica), com nota fiscal emitida em nome do PTB Mulher, ao preço de R$ 122,2 mil, também está na conta daquilo que os cidadãos brasileiros pagam em impostos e que depois acabam irrigando o caixa das legendas partidárias inescrupulosas, como é o caso do PTB. É para esse partido que Bolsonaro quer ir caso não consiga ingressar no Progressistas, presidido por seu ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira.

12.900 - aluguel mansão
© Fornecido por IstoÉ 12.900 – aluguel mansãoOs gastos de Graciela em nome da legenda, dominada por Jefferson há dezenas de anos, são escandalosos. O PTB utilizou dinheiro público para pagar os aluguéis das moradias da petebista. Natural de Santa Catarina, a dirigente vivia num flat alugado na Asa Norte, cujo aluguel custava R$ 3,5 mil mensais ao partido. Hoje, ela reside em uma mansão localizada em um dos “condomínios mais nobres de Brasília”, segundo anúncio do imóvel que a presidente do PTB alugou no dia 10 de outubro de 2021. “Casa espetacular de altíssimo padrão, com 412 m² e 5 suítes, repleta de armários, com área gourmet, piscina aquecida com hidromassagem, ar condicionado em todos os quartos e na sala.

Acabamentos primorosos e garagem para 4 carros”, diz o anúncio da imobiliária de Esmeralda Rodrigues, que alugou o luxuoso imóvel para servir à nova mandatária e que fica no condomínio “Le Jardin”, no Setor Tororo do Distrito Federal. “Com casas de alto padrão, segurança 24h e diversas comodidades”, continua o texto, o aluguel da casa é de R$ 12,9 mil. Tudo, claro, custeado com dinheiro público do fundo partidário, segundo investigações da PF e que já estão também no STF.

Cirurgia bariátrica

As mordomias da protegida de Jefferson, que diz nos bastidores ser “filha postiça” do presidente licenciado, que atualmente está detido do Presídio de Bangu 8, não param por aí. Documentos apreendidos na tesouraria do PTB sugerem que Graciela teria desviado mais de R$ 122 mil dos recursos do Fundo Partidário para realizar um procedimento cirúrgico para tratar a obesidade. Segundo pessoas próximas a ela, a cirurgia teria sido feita para a colocação de um balão intragástrico em seu estômago, o que permitiria o emagrecimento de forma mais rápida.

O pagamento foi feito com recursos do PTB Mulher, e o dinheiro foi enviado para a secretária nacional de comunicação do partido, Rafaela Armani Duarte, conforme demonstram os documentos. Funcionários do partido dizem, contudo, que o objetivo foi o de burlar a fiscalização, já que o pagamento de serviços à secretária teria sido feito “para dar início” ao procedimento médico. A operação, feita em dezembro de 2020, teria sido paga em duas vezes, de acordo com a denúncia encaminhada à PF: uma parcela de R$ 100 mil e outra de R$ 22.200, conforme recibo.© Fornecido por IstoÉ

O pagamento foi feito por débito automático no dia 1º daquele mês para a conta de Rafaela, no Santander de Águas Claras, no entorno do DF. Funcionários da contabilidade da agremiação guardavam as notas suspeitas nos arquivos do PTB, referentes a pagamentos efetuados à agência publicitária da secretária, considerados suspeitos pelos investigadores.

Segundo a reportagem apurou, os repasses ocorreram em dezembro por ser um período em que as despesas da organização partidária são menores e não chamam tanta atenção. Colegas confirmam que Graciela comunicou aos amigos que faria o procedimento médico no início de dezembro, exatamente no mesmo período em que ocorreu a transferência para Rafaela Armani. Sua empresa, a “Prestige Assessoria e Marketing”, também é investigada pelo STF por suspeitas de ter sido usada para a produção dos conteúdos que visavam atacar os ministros da Corte e integrantes do Poder Legislativo. Essa foi, inclusive, a causa da prisão de Jefferson.

O ministro Alexandre de Moraes já determinou, inclusive, que a empresária forneça documentos que comprovem os serviços prestados pela agência ao PTB.

Líderes importantes da legenda confidenciaram à reportagem que o partido já gastou mais de R$ 1,1 milhão em serviços de postagens em sites e páginas na internet com ataques a outras instituições, principalmente no período entre janeiro e agosto de 2021. Todas essas informações já foram apresentadas por petebistas ao STF. Procurada, a presidência do PTB negou as denúncias e atribuiu as informações “à narrativa de filiados que buscam desestabilizar o partido”.

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E as benesses denunciadas à PF não param por aí. Uma nota fiscal de dezembro de 2020, quando Graciela ainda era somente a vice-presidente nacional, mostra que o PTB usou dinheiro público para pagar almoço de R$ 1.358.08 em um restaurante na orla de Ilhéus, na Bahia. Graciela participou da refeição que, por sinal, foi bastante farta: moquecas de camarão a R$ 239, bobó de camarão a R$ 119,99, camarão empanado a R$ 119,98, além de filé mignon, picanha grelhada, salmão e licor. De quebra, os petebistas deixaram uma caixinha de R$ 123,46.

A comilança foi patrocinada quando a então vice-presidente acompanhava Roberto Jefferson em uma viagem por cidades do Nordeste. No mesmo dia, todos eles também foram a um jantar na cidade de Itabuna (BA) e não houve economia. Extratos mostram que a refeição custou mais de R$ 1 mil. No cardápio, bacalhau, filé de chorizo e kafta de carne.

Dois meses antes, Graciela também autorizou a compra de um computador por mais de R$ 10 mil para uso exclusivo da presidência do PTB. As suspeitas são de que isso tenha sido feito de caso pensado, porque, hoje, quem faz uso desse equipamento é a própria “filha postiça” de Jefferson. Fora os privilégios, ela ainda recebe um salário via Fundo Partidário no valor de R$ 27.000, dinheiro que também é bancado pelos cofres públicos.

Orientada pelo próprio Jefferson, a atual presidente já controlava a contabilidade do partido quando era apenas vice-presidente e responsável por ordenar todas as despesas.

“Meu pai não está bem da cabeça”

A relação de confiança entre os dois é tão forte que Jefferson apoiou Graciela na decisão de expulsar da legenda a própria filha, Cristiane Brasil. A ex-deputada, porém, já avisou aos seus interlocutores no partido que não vai se conformar com a decisão. “O PTB é da minha família há gerações”, disse Cristiane. Ela afirmou que o pai estava com problemas mentais ao deixar Graciela na presidência. “É com profundo pesar que afirmo: meu pai não está bem da cabeça”, acusou em suas redes sociais, ao comentar o poder da adversária.

O certo é que o PTB, fundado em 1945, vive hoje uma das maiores crises morais e éticas da história, segundo contaram alguns funcionários. Além do presidente Jair Bolsonaro ter a legenda como alternativa de filiação caso não seja aceito no PP, um de seus filhos, o deputado Eduardo, também chegou a articular sua ida para o partido de Jefferson, antes de ele ser preso.

Um dos interlocutores de Eduardo na agremiação foi Otávio Fakhoury, presidente do PTB paulista. O advogado também é investigado nos inquéritos do STF sobre fake news e atos antidemocráticos, conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes, e é suspeito de ter financiado ilegalmente anúncios da campanha de Bolsonaro para presidente em 2018, no valor de R$ 53.300.

Fakhoury é investigado ainda pelo recebimento de recursos da Petrobras por aluguéis de um terreno de sua propriedade para a instalação de postos da marca, de setembro de 2017 a dezembro de 2018, no valor de R$ 30 mil. Esses valores, contudo, foram aditados em maio de 2019, já no governo Bolsonaro, para R$ 150 mil.

Na investigação do STF à qual ISTOÉ teve acesso, Fakhoury é suspeito também de ter ajudado o blogueiro Allan dos Santos que, em conjunto com o deputado Eduardo, tentou comprar rádios de uma igreja evangélica paulista para a instalação de uma rede de comunicação bolsonarista, o que acabou sendo abortado em meio às investigações do STF. Com base nessas informações, a Justiça Eleitoral pode punir a legenda, que corre o risco de ter restrições para sua operação nas eleições do ano que vem: uma das alternativas de filiação de Bolsonaro está sob suspeita.

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