Bolsonaro discursa aos gritos, usa palavrões e diz a empresários que eleição pode ser conturbada

Ainda sobre eleições, ele disse que "ou nós decidimos no voto, pra valer, contabilizado, auditado, ou a gente se entrega. E se a gente se entregar? Vai demorar 50 anos ou mais pra voltar à situação que está hoje em dia".

Bolsonaro prepara golpe e deve ser responsabilizado por ataques à  democracia, diz professor da UFRJ - Brasil 247

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou nesta segunda-feira (16) a relativizar os atos de raiz golpista do 7 de Setembro do ano passado, tratando-os como de liberdade de expressão, e disse que nunca será preso. “Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso”, disse Bolsonaro, em evento com empresários em São Paulo.

TNM/Por BRUNO B. SORAGGI

Antes, o presidente afirmou que responde a uma série de processos, mas que não está dando recado para ninguém o presidente é alvo de inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal).

Em fala de improviso e aos gritos em evento da Apas (Associação Paulista de Supermercados), Bolsonaro se irritou em diferentes momentos, falou uma série de palavrões, ameaçou mais uma vez não cumprir decisões do STF sobre terra indígena e ironizou o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), chamado por ele de “inexpugnável”.

O presidente voltou a atacar o sistema eleitoral brasileiro e criticou o TSE por não aceitar novas sugestões das Forças Armadas à Comissão de Transparência nas Eleições, criada por aquela corte.

“O TSE chama as Forças Armadas [para participar do grupo]. Eles mostram 600 vulnerabilidades [do sistema eleitoral]. Se vocês pegarem uma peneira de um metro, [o pleito] tem mais vulnerabilidade que essa peneira. Mas aí não valem as sugestões”, disse.

Ainda sobre eleições, ele disse que “ou nós decidimos no voto, pra valer, contabilizado, auditado, ou a gente se entrega. E se a gente se entregar? Vai demorar 50 anos ou mais pra voltar à situação que está hoje em dia”.

Em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, distante do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Bolsonaro disse aos empresários não ser ditador e que não pediria a eles que não o abandone agora, mas que isso caberia à consciência de cada um deles.

“Eu não sou fodão, não”, disse aos presentes, antes de afirmar que poderemos ter “eleições conturbadas”.

“Tudo pode acontecer. Podemos ter outra crise. Podemos ter eleições conturbadas. Imagine acabarmos as eleições e pairar, para um lado ou para o outro, a suspeição de que elas não foram limpas? Não queremos isso.”

“Não sou ditador. Sou uma pessoa que tem responsabilidade com o Brasil”, afirmou, antes de dizer, porém, que “só Deus me tira de lá [da Presidência]. Não adianta ficar inventando canetada”, afirmou.

Em sua fala, o presidente da República também ironizou Lula, a quem chamava de “nine” (nove, em inglês), e o ex-governador paulista João Doria (PSDB). “O engravatado lá, o cara que nunca sentiu cheiro de pobre na vida”, disse sobre o tucano, a quem apoiou em 2018 na dobradinha BolsoDoria.

O mandatário criticou novamente o fechamento de comércios por governos estaduais durante a pandemia, medidas que ele chamou de absurdas.

“Eu não tive poder de administrar a pandemia. O Supremo deu poder para os governadores e prefeitos. E barbaridades foram feitas.”

“Imagina se estivesse no meu lugar [na Presidência] o [candidato] que ficou segundo colocado em 2018. Tinha feito um lockdown nacional”, afirmou.

“Tô me arriscando o tempo todo por vocês”, disse Bolsonaro, que chegou a brincar que é “imorrível.”

Bolsonaro, militares e integrantes do governo entraram na mira da apuração sobre uma suposta organização criminosa investigada pela Polícia Federal por ataques às instituições e disseminação de desinformação.

Isso ocorre devido à junção da apuração sobre a live de 29 de julho de 2021 —em que Bolsonaro fez seu maior ataque ao sistema eleitoral brasileiro— com o caso das milícias digitais, vinculação ordenada pelo ministro Alexandre de Moraes, relator das apurações no Supremo.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, a investigação da PF sobre a live aponta que o uso das instituições públicas para buscar informações contra as urnas vem desde 2019 e envolveu, além de Bolsonaro, o general Luiz Eduardo Ramos e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), atrelada ao Gabinete de Segurança Institucional chefiado pelo também general Augusto Heleno.

Além de Bolsonaro e dos dois generais, entram na mira da PF a partir de agora o ex-diretor-geral da Abin, Alexandre Ramagem, o ministro da Justiça, Anderson Torres, e o coronel do Exército Eduardo Gomes da Silva, responsável por apresentar as suspeitas de fraudes na live.

No domingo, em Brasília, Bolsonaro disse que só “imbecil” ou “psicopata” afirma serem antidemocráticas as manifestações em apoio a ele realizadas no 7 de Setembro de 2021, com raiz golpista, e no último 1º de maio.

“Um maluco levanta uma faixa lá: AI-5, existe AI-5? Tem que ter pena do cara”, disse ele, ao ser questionado sobre ataques ao Congresso e ao Judiciário registrados em manifestações governistas.

“Só um psicopata ou um imbecil para dizer que os movimentos de 7 de Setembro e 1º de Maio atentam contra a democracia. Quem diz isso é um psicopata ou imbecil”, declarou Bolsonaro.

Nesta segunda, diante de empresários do setor de supermercados, repetiu o discurso, em meio a tímidos aplausos dos presentes.

No 7 de Setembro, em discursos diante de milhares de apoiadores em Brasília e São Paulo, Bolsonaro fez ameaças golpistas contra o STF (Supremo Tribunal Federal), exortou desobediência a decisões da Justiça e disse que só sairá morto da Presidência da República.

Na Esplanada dos Ministérios, Bolsonaro fez uma ameaça direta ao presidente do Supremo, ministro Luiz Fux. “Ou o chefe desse Poder [Fux] enquadra o seu [ministro] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”, disse, referindo-se às recentes decisões de Moraes contra bolsonaristas.

“Nós todos aqui na Praça dos Três Poderes juramos respeitar a nossa Constituição. Quem age fora dela se enquadra ou pede para sair”, disse o presidente, em um caminhão de som no gramado em frente ao Congresso.

À tarde, na avenida Paulista, exortou desobediência a decisões da Justiça.

“Nós devemos sim, porque eu falo em nome de vocês, determinar que todos os presos políticos sejam postos em liberdade. Dizer a vocês, que qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou”, afirmou Bolsonaro.

“[Quero] dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”, disse o presidente, que prosseguiu. “Ou esse ministro se enquadra ou ele pede para sair. Não se pode admitir que uma pessoa apenas, um homem apenas turve a nossa liberdade.”

Bolsonaro também afirmou nesta segunda, em conversa com apoiadores publicada nas redes sociais, que “o povo vivia um pouco melhor” na época do governo de Lula.

“Lógico que vivia, concordo”, disse. No entanto, ele afirmou que o petista não enfrentou uma pandemia nem uma guerra, em referência ao conflito entre Rússia e Ucrânia.

“Mas se lá atrás se vivia melhor, podia ter vivido muito, mas muito melhor ainda se não tivesse roubado tanto”, atacou.

Bolsonaro também criticou discurso em que Lula disse que o atual presidente temia ser preso após deixar a presidência da República.

“Discurso do Lula agora de prender minha família toda depois da eleição? Prender para que, qual acusação? Fake news? Essa é a acusação, fake news? Fake news é o que eles não gostam de ouvir, é a verdade deles”, afirmou.

E prosseguiu: “Tem uma passagem bíblica que diz que a soberba precede a queda. Esses caras não sabem o que é Deus, não acreditam e não tem respeito por quem acredita”.

No diálogo com simpatizantes, Bolsonaro também criticou o ex-governador da Bahia, Rui Costa (PT), e disse que existem “canalhas” que querem “colocar toda a culpa” da crise econômica nele.

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