Caçadores de escândalo

“Para julgar sobre as coisas grandes e elevadas é preciso uma alma equivalente, ou então atribuímos a elas o vício que é nosso”.
Seguindo prescrição do doutor Álvaro Machado, assisti a uma “raríssima entrevista de Guimarães Rosa” – assim apresentada – no YouTube. A conversa, histórica, aconteceu em 1962 numa TV da Alemanha, país onde ele foi embaixador.

Sujeito afetado, assim me pareceu, com uma fala mole e desagradável. Mas que fique claro: em nada se reduziu a minha admiração pelo autor de Grande Sertão: Veredas, a obra magistral da literatura brasileira.

Já tomei como verdadeiro, de há muito, o ensinamento de Octavio Paz, poeta e também embaixador mexicano, para quem a “biografia de um escritor é a sua obra”. O Rosa janota e esnobe, assim definido por quem o conheceu de perto, de há muito para mim é o genial sábio sertanejo Riobaldo – e ponto final.

É claro que todos nós temos curiosidade sobre os defeitos e vícios – mais do que sobre as qualidades e virtudes – dos personagens que se mostram grande naquilo que fazem. E se encontramos o que buscamos, chegamos à tola conclusão de que somos todos iguais.

Não é verdade: eles se diferem exatamente por aquilo que fazem com a destreza e o talento que nos faltam – e é exatamente isso que há de prevalecer. O nosso voyeurismo existencial pede uma compensação pelo que não somos e que poderíamos obter pelas revelações da intimidade do alvo da nossa admiração/despeito.

Em resumo, somos caçadores de escândalo.

Pablo Picasso foi um irrefreável fornicador, conhecido pela sedução de jovens, a quem abandonava sem remorsos e na miséria, após satisfazer seus desejos.

Victor Hugo, que se casou virgem, fez sua esposa odiar sexo depois de repetir por oito vezes o ato inaugural, na noite de núpcias.

Charles Chaplin, entre outras coisas, não dispensava uma moçoila, e quanto mais jovem, melhor, o que ajudou Edgar Hoover, o todo-poderoso do FBI, a incriminá-lo.

A lista há de ser interminável e até abastecer com sobras o nosso baú de consolo da normalidade mediana predominante.

“Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava”, debochou o pensador brasileiro Nelson Rodrigues. Prenhe de razão, a apontar a hipocrisia nossa de cada dia, desde que o feito no território limitado não seja o resultado da criação da beleza, esta que encanta o mundo do lado de fora do recinto secreto.

Revelações torpes nos interessam e nos empurram para a incontida curiosidade e, quem sabe, podem até nos levar a um conforto anímico. Mas, ainda que o outro se apequene, nem assim a gente cresce.

A arte – como a ciência – é feita por pessoas comuns, quando elas se libertam da democrática mediocridade. No mais da vida, artistas e cientistas carregam as mesmas vulnerabilidades e contradições. Contaminar o nosso julgamento da obra com os defeitos banais e corriqueiros de quem a criou diminui o julgador – e não o julgado.

Num dos seus ensaios, Montaigne, que foi magistrado, advertiu: “Para julgar sobre as coisas grandes e elevadas é preciso uma alma equivalente, ou então atribuímos a elas o vício que é nosso”.

É isso.

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