Jornalismo decente na busca da verdade

A força motriz que une o voto da direita e da esquerda, hoje, é o punitivismo. Com o colapso das utopias coletivas, a punição do “outro” – corrupto, criminoso ou adversário político – tornou-se o instrumento mais acessível à população. O voto deixa de ser instrumento de construção e torna-se instrumento de negação.

A disputa eleitoral atual revela um fenômeno novo: a força avassaladora das redes sociais. E é justamente aí que o jornalismo está sendo desafiado a ser jornalismo na sua essência.

Não podemos deixar de ter como bússola, Cláudio Abramo: -Nossa profissão é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter.

O jornalismo não tem lado, porque tem uma missão sagrada: investigar, apurar e divulgar a verdade para quem precisa ser informado. A polarização ameaça esta cláusula pétrea do compromisso com a informação.

Essa disputa perversa, por um lado, nos lembra o que descrevia o sociólogo Francisco de Oliveira ao analisar o eleitor brasileiro como uma entidade que funde elementos arcaicos e modernos, progressistas e conservadores, de modo desarmônico, mas estruturalmente consistente. Um sujeito próprio, um animal político com características peculiares.

A força motriz que une o voto da direita e da esquerda, hoje, é o punitivismo. Com o colapso das utopias coletivas, a punição do “outro” – corrupto, criminoso ou adversário político – tornou-se o instrumento mais acessível à população. O voto deixa de ser instrumento de construção e torna-se instrumento de negação.

Se o jornalismo é a busca diária da verdade e da justiça, não podemos deixar de ter como bússola o que afirmava o jornalista Cláudio Abramo: a nossa profissão é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter.

Não podemos embarcar nesta canoa furada da polarização. Não vamos estimular nosso povo a votar com o fígado, baseado em arroubos infantis de raiva, ressentimento e uma cachoeira de ignorância repetida em chavões. Não vamos povoar esse deserto de ideias alimentando a mediocridade dos incautos.

Este é o ano mais importante para a história da nossa jovem democracia republicana. Seremos dignos desse tempo? E quando pergunto se seremos, estou me referindo aos jornalistas e aos meios de comunicação.

Não sai da memória a manipulação da Globo na edição criminosa do debate Lula x Collor, que interferiu diretamente na eleição e deu o mandato a Collor. Agora, recentemente, um powerpoint canalha que tentava associar o governo federal e o presidente Lula diretamente ao escândalo do Master, foi um soco na frágil credibilidade do Grupo Globo.

Esses grandes grupos de comunicação – Estado, Folha, Abril e outros – precisam entender que a verdade não usa maquiagem.

Por fim, não podemos esquecer que não há vida fácil para o jornalista em uma sociedade extremamente desigual e violenta, principalmente em desfavor de pardos e negros. É essa desigualdade que faz pretos e pardos abandonarem os estudos antes de chegar ao ensino superior: são três em cada cinco brasileiros. Sim, uma desigualdade gigante que estamos vendo de novo.

É por isso que defender um jornalismo decente não é corporativismo. É defender a democracia.

*Régis Cavalcante é jornalista, ex-deputado federal e professor de Comunicação Social da Ufal

Marcelo Firmino

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