A insegurança relatada pela adolescente não é um caso isolado. Uma pesquisa Nexus, realizada em maio e divulgada pela coluna de Daniela Lima, no UOL, mostrou que 54% dos jovens de 16 a 24 anos estavam certos sobre o voto, enquanto 38% admitiam a possibilidade de mudar de escolha.

O cenário é diferente entre os eleitores de 25 a 60 anos. Nessa faixa etária, os índices relacionados à certeza e à definição do voto variavam entre 74% e 78%, percentuais superiores aos registrados entre os mais jovens.

Em Alagoas, 54.299 eleitores de 16 e 17 anos estão aptos a participar das Eleições 2026, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE/AL). Para essa parcela da população, o voto é facultativo.

Na avaliação da assessora de comunicação do TRE/AL, Flávia Gomes, cada jovem que solicita o título eleitoral demonstra interesse espontâneo em participar das decisões políticas do país.

Segundo a assessora, a juventude alagoana tem ampliado a participação nos debates sobre as propostas dos candidatos, embora esse movimento não ocorra de maneira uniforme. “Também há uma parcela que, mesmo reconhecendo a importância desse dever, ainda se sente insegura em votar”, afirma.

Uma geração conectada, mas distante da política

Essa insegurança faz parte da experiência de Samara. Mesmo prestes a completar 18 anos, ela decidiu que não pretende ir às urnas em outubro.

A escolha, segundo a jovem, não decorre da falta de preocupação com o futuro de Alagoas ou do país, mas da sensação de que ainda não conhece suficientemente os candidatos para tomar uma decisão.

“Prefiro conhecer melhor os candidatos e entender mais sobre política antes de escolher em quem votar”, explica.

Embora não pretenda participar da eleição deste ano, Samara reconhece a importância do voto nas decisões que afetam a sociedade. Ela conta que costuma buscar informações em veículos de comunicação que considera confiáveis e checar os conteúdos que recebe pelas redes sociais para evitar notícias falsas e formar a própria opinião.

Na avaliação da jovem, os assuntos políticos frequentemente provocam discussões, mas nem sempre os debates são acompanhados de conhecimento sobre os temas abordados. Para ela, muitas pessoas se limitam a defender posições, sem discutir propostas capazes de melhorar o estado e o país.

“Não é sobre escolher o pior ou o menos pior. É sobre alguém que venha disposto a realmente fazer a diferença e melhorar o nosso lugar”, destaca.

Ao falar sobre as prioridades para Alagoas, Samara aponta a necessidade de investimentos em educação, com mais oportunidades para os jovens. Ela também defende maior atenção ao transporte público, à mobilidade urbana e à segurança.

“Acho que, com mais investimentos e uma boa gestão, essas áreas podem melhorar bastante a qualidade de vida da população”, pontua.

O voto e a distância do debate

O afastamento da política, porém, não aparece apenas entre os jovens que decidem não votar. Erick Monteiro, de 17 anos, tirou o título eleitoral neste ano e participará pela primeira vez de uma eleição.

Erick Monteiro, estudante de 17 anos. Foto: Acervo pessoal

Apesar de reconhecer a importância do voto, ele admite que não acompanha com frequência as propostas dos candidatos nem o cenário político de Alagoas.

Segundo Erick, a ausência desse debate em seu círculo de convivência faz com que o contato com temas políticos seja apenas ocasional.

“Normalmente, as pessoas do meu convívio cotidiano não costumam falar sobre política, mas, vez ou outra, em uma aula ou reunião, surge algum tema e acaba acontecendo uma discussão ou um debate”, conta.

A experiência de Erick mostra que votar e acompanhar a política nem sempre caminham juntos. Mesmo decidido a participar das eleições, ele percebe uma distância entre o cotidiano de sua geração e o debate político.

Para o jovem, a quantidade de conteúdos que circulam diariamente pode contribuir para esse afastamento. Em meio ao fluxo constante de publicações nas redes sociais e em outros canais, a política passa a disputar atenção com diversos temas do cotidiano.

“Creio que, com o grande bombardeio de informações que acompanha essa geração, o contato excessivo com conteúdos políticos faz com que o tema se torne apenas mais um entre vários assuntos, ocasionando desinteresse nessa área”, analisa.

Entre as redes e as urnas

A dificuldade de aproximar os jovens da política institucional também foi analisada pelo professor dos programas de pós-graduação em Antropologia Social e Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), João Bittencourt, em entrevista ao CadaMinuto, em maio deste ano.

 

Prof. Joao Bittencourt, coordenador do Laboratório da Juventude (LabJuv), da Ufal. Crédito: Cortesia ao CadaMinuto

 

Na ocasião, o pesquisador avaliou que a juventude atual se relaciona de maneira diferente com a política. Enquanto os jovens buscam estruturas mais horizontais, partidos e instituições ainda permanecem presos a modelos hierárquicos e distantes, sobretudo, da realidade das periferias.

“A direita vem construindo estratégias muito mais eficazes para dialogar com essa população, utilizando TikTok e WhatsApp para criar uma ideia de radicalidade e transgressão”, analisou.

Para Bittencourt, essa distância não se resume à falta de identificação ou de interesse. A ausência dos jovens nas urnas também pode fazer com que esse grupo tenha menos espaço entre as prioridades dos gestores públicos, aprofundando o sentimento de falta de representação.

“Se o jovem não vota, o gestor se sente desobrigado de construir políticas públicas para ele. O sistema não o enxerga, e ele passa a se sentir cada vez menos representado”, reforçou.

A tentativa de reduzir essa distância também passa pela maneira como a Justiça Eleitoral se comunica com esse público. Segundo Gomes, o TRE/AL tem investido em vídeos curtos, linguagem simples e conteúdos adaptados às redes sociais, além de desenvolver ações de educação política e combate à desinformação.

“Nosso trabalho não é dizer em quem o jovem deve votar, mas mostrar que ele tem o direito de participar e oferecer informação para que possa fazer essa escolha com segurança e consciência”, explica.

Entre as iniciativas desenvolvidas pelo órgão está o concurso “Juventude Contra a Desinformação”, que incentiva estudantes a produzirem vídeos sobre educação midiática, cidadania digital e enfrentamento às notícias falsas.

Para a jornalista, o objetivo é fazer com que os jovens deixem de ser apenas receptores de informações e também participem do enfrentamento aos conteúdos enganosos. “Combater a desinformação também é uma forma de exercer cidadania”, afirma.

Educação política antes do primeiro voto

Para Erick, mais do que estimular o comparecimento às urnas, é necessário criar condições para que os jovens compreendam o próprio papel na sociedade e percebam que as decisões políticas interferem diretamente em suas vidas.

“Tendo isso em vista, acredito ser necessária, antes de tudo, a educação política para a conscientização sobre a importância do tema”, aponta.

A Escola Judiciária Eleitoral mantém os programas Eleitor do Futuro, destinado ao público de 10 a 15 anos, e Eleitor Jovem, voltado a quem tem 16 e 17 anos. As iniciativas buscam incentivar a participação política e apresentar o funcionamento do processo eleitoral antes mesmo do primeiro voto.

Para o TRE/AL, esse trabalho também precisa alcançar quem vive fora da capital. A Justiça Eleitoral afirma promover ações de cidadania em municípios do interior, embora ainda não disponha de dados atualizados que permitam comparar, com segurança, a adesão dos jovens de Maceió com a registrada nas demais cidades alagoanas.

Os relatos de Samara e Erick mostram que ter o título eleitoral não significa estar próximo da política. O desafio é fazer com que os jovens reconheçam suas demandas nas propostas dos candidatos e compreendam o impacto do voto em suas vidas.

Como alerta João Bittencourt, a ausência dessa parcela da população nas urnas também pode reduzir seu espaço entre as prioridades do poder público. “Se o jovem não vota, o gestor se sente desobrigado de construir políticas públicas para ele. O sistema não o enxerga, e ele passa a se sentir cada vez menos representado.”

*Estagiária sob supervisão da editoria