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Óstia devia ser uma cidade litorânea tranquila em 387, quando Aurélio Agostinho lá chegou. Tendo se convertido à fé católica e renunciado à sua cátedra de retórica em Milão, ele veio acompanhado de sua mãe, Mônica; de seu filho Adeodato — nascido da mulher com quem vivera por mais de uma década—, de seu irmão Navígio e de seus amigos Alípio e Evódio.
O grupo estava a caminho da África, com a intenção de que Agostinho se retirasse para viver como um servo de Deus em sua terra natal, Tagaste. A antiga colônia romana já não era o polo comercial vital que outrora abastecera Roma com grãos e mercadorias de toda espécie, por meio de seu porto e do rio Tibre, que corria ao seu lado.
A foz do rio, onde a cidade surgira originalmente, servindo como porta de entrada para a Cidade Eterna, revelara-se inadequada para comportar o intenso volume de navegação e comércio. Consequentemente, o imperador Cláudio ordenara a construção de um novo porto cerca de três quilômetros ao norte, conectado ao Tibre por um canal artificial. Um centro urbano chamado Portus desenvolveu-se ao seu lado, tornando-se o novo polo comercial; mais tarde, foi ampliado com uma vasta bacia hexagonal encomendada pelo imperador Trajano, a qual se conectava ao porto anterior — mais protegido — e ligava-se diretamente à rota fluvial. Ostia, por sua vez, manteve seu papel como centro administrativo e de gestão, mas havia se tornado, primordialmente, uma cidade residencial.
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A estadia deles em Óstia
É provável que Agostinho tenha caminhado pelo decumanus maximus e entrado nas ruas transversais e paralelas, ladeadas por casas, lojas, thermopolia — o que hoje chamaríamos de bares ou lanchonetes —, tavernas e pequenos mercados. Óstia ostentava um Fórum, vários templos (incluindo uma sinagoga), diversos complexos de banhos, um teatro, fullonicae (lavanderias), casas de patrícios e inúmeras insulae — os edifícios de apartamentos de vários andares onde residiam a classe média e a plebe.
Nos arredores, erguia-se uma basílica de três naves, encomendada por Constantino e dedicada aos santos Pedro, Paulo e João Batista. É fácil imaginar Mônica ali, entre os fiéis durante as celebrações, e Agostinho — ansioso por “conhecer a Deus e a alma” (Solilóquios I, 2, 7) — absorto em oração; pois eles precisavam encontrar hospedagem em Óstia enquanto aguardavam o embarque para a Numídia. Era o final do verão — época pouco propícia para longas viagens — e, além disso, o usurpador Magno Máximo havia chegado à Itália e bloqueado o acesso aos portos de Roma, numa tentativa de interceptar o navio do imperador Valentiniano II, que retornava do Oriente após fugir de Milão para buscar o apoio de Teodósio.
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Longe do ruído da multidão
É provável que Agostinho, sua mãe e os demais tenham encontrado hospedagem na casa de patrícios cristãos. Ao ler as “Confissões” (IX, 10, 23), é possível imaginá-lo em uma daquelas refinadas domus, cujos vestígios permanecem até hoje; ali, ele relata o dia em que ele e Mônica, “apoiados numa janela que dava para o jardim da casa onde estávamos hospedados, perto de Óstia Tiberina, longe do ruído da multidão”, conversaram “a sós, com grande doçura”.
A descrição sugere uma residência confortável, situada um pouco afastada do centro da cidade. Aqui, “esquecendo o que fica para trás e lançando-se para o que está à frente”, mãe e filho começam a meditar sobre a vida eterna, com os corações abertos a Deus para que possam ser impregnados pela Verdade. Ela alcançou a plena maturidade da fé; suportou provações e tribulações, encontrando na oração a força para enfrentá-las; aprendeu a confiar em Deus durante a adversidade e os momentos de escuridão; nutriu-se de Sua Palavra nas assembleias da Igreja; e viu seu filho abraçar a fé católica. Ele, recém-batizado, começou a aprofundar-se na Verdade.
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A alegria em Deus
Assim, ao refletirem sobre a vida eterna, chegam à conclusão de que, “comparado à alegria daquela vida, o prazer dos sentidos físicos, por maior que seja e ainda que vivenciado na mais brilhante luz material, não suporta comparação, nem sequer é digno de menção”.
O diálogo eleva mãe e filho “com um impulso de amor mais ardente em direção ao próprio Ser” e os leva a alçar voo “para o alto, além de todas as coisas materiais e dos céus”. Desse modo, ascendendo por meio da “contemplação, exaltação e admiração” das “obras” de Deus, alcançam as suas próprias “almas”, transcendendo-as “para atingir o reino da abundância inesgotável”, onde “a vida é Sabedoria”, eterna e imutável. “E enquanto falávamos e ansiávamos por ela, tocamo-la brevemente com o impulso total da mente; depois, com um suspiro, deixamos ali as primícias do espírito, apenas para descer mais uma vez ao som vazio de nossas próprias vozes.” Esse é o “Êxtase de Óstia”, a experiência mística compartilhada por Mônica e Agostinho. O grande Padre da Igreja perguntava-se em voz alta se aquela seria a “alegria” em Deus e quando ela se realizaria plenamente — “talvez no dia em que todos nós ressuscitarmos?” —, ao passo que sua mãe, ansiando pela alegria da vida eterna que acabara de vislumbrar, dizia: “quanto a mim, esta vida já não exerce qualquer atração sobre mim.
Não sei o que ainda faço aqui ou por que permaneço. Minhas esperanças na terra se esgotaram. Havia apenas uma coisa que me fazia desejar ficar aqui um pouco mais: ver-te cristão católico antes de morrer. Meu Deus concedeu-me isso em plenitude, pois vejo-te até mesmo desprezando a felicidade terrena para servi-Lo”.
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A última lição de Mônica
Mônica faleceu poucos dias depois. Antes de partir para sua morada celestial, ela pediu aos filhos que não se preocupassem em levar seus restos mortais de volta a Tagaste. “Sepultem este corpo onde quiserem; não deixem que isso os perturbe”, instruiu ela, pedindo apenas que se lembrassem dela, onde quer que estivessem, “junto ao altar do Senhor”.
Agostinho observa que, anteriormente, ela estivera profundamente preocupada com seu sepultamento, chegando a preparar um lugar ao lado do de seu marido. Contudo, em Óstia, Mônica nos oferece uma última lição. Tendo aprofundado ainda mais sua fé durante seus últimos dias, ela conversou com amigos que lhe perguntaram se a perspectiva de deixar seu corpo tão longe de sua terra natal a assustava. Ela exclamou com convicção: “nada está longe de Deus, e não há motivo para temer que, no fim dos tempos, Ele deixe de reconhecer o lugar de onde deverá me ressuscitar”.



