14 mai, 2017
Sargaço pode ser usado como adubo orgânico de qualidade comprovada

Foto: Fillipe Lima / Cada MinutoExcesso de sargaço é comum na orla de Maceió

Maceió é reconhecida como o Paraíso das Águas. Milhares de turistas “invadem” a cidade durante o verão para aproveitar as mais variadas opções de passeios. Porém, um fenômeno muito comum em nossa costa e já tradicional entre os moradores da capital tira um pouco do brilho de nossas praias. O sargaço e seu cheiro forte espantam alguns visitantes que acham que as areias estão poluídas. Contudo, poucos sabem que este é um poderoso adubo orgânico e de qualidade comprovada em uma pesquisa da Universidade Federal de Alagoas.

O Sargassum – nome cientifico – é um gênero especifico de plantas marinhas do grupo das algas pardas ou marrons, chamada de Phaeophyta (ou Heteroconthophyta). O vegetal é de extrema importância para o ambiente marinho, já que serve de alimento para seres vivos como algumas espécies de peixes e tartarugas.

De acordo com a professora do Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Ufal, Élica Guedes, o sargaço é mais comum nos locais onde há muitos recifes e suas aparições na costa marítima são fruto da força das ondas aliadas ao vento e que o forte odor que é sentido não vem dela, mas sim, da poluição causada pelos esgotos e o lixo acumulado nas praias.

“Observamos que nas praias em que o sargaço exala mau cheiro são justamente as que são poluídas pela ação do homem. O único odor que exala das algas é o natural da maresia, que aliado com o lixo, acaba criando essa mistura ruim” – disse Élica.

A especialista em algas marinhas revelou que a presença do sargaço é um bom sinal para o mar maceioense e explicou que as plantas não têm raízes e são facilmente arrancadas pela força do oceano que as desprendem dos recifes, fazendo com que o próprio mar as levem para a praia.

Apesar de causar incômodo aos banhistas, o sargaço somente é retirado da orla pela Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (Slum) quando há uma quantidade acima do considerado normal pela Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente (Sempma).

“A retirada do sargaço na faixa de areia é feita por agentes da Slum de forma regular e de acordo com a necessidade. O trabalho é realizado nos períodos de maré baixa e acontece com o auxílio de um veículo com pá carregadeira acoplada. Se a quantidade for grande, sobretudo em áreas onde a concentração é maior, como na praia de Jatiúca, uma caçamba é utilizada no serviço” – informou a Assessoria de Comunicação da Sempma.

A professora Élica e seus alunos descobriram um método que poderia transformar esse sargaço expulso pelo mar e utilizá-lo em ambientes bem distantes da praia. A cientista desenvolveu uma técnica que transforma o sargaço inutilizável pela natureza em um adubo orgânico para usar em plantações.

Há 20 anos trabalhando como ambulante na praia, Cosme Matias, de 53 anos, afirma que nos períodos em que o sargaço fica na orla, a clientela cai consideravelmente e o prejuízo chega a fazer com que eles percam dias inteiros de trabalho.

“Eu chego a perder 90% do faturamento se comparado com os dias comuns. O mau cheiro deixa a praia inviável para que os banhistas venham passar o dia aqui e consumir nossos produtos” – contou.

De acordo com Maurício Vasconcelos, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Alagoas (ABIH-AL), a incidência do sargaço incomoda muitos hóspedes que procuram a orla de Maceió, mas que a entidade faz um trabalho de desmistificação de que os vegetais marinhos são lixo.

“Recomendamos aos estabelecimentos ligados à rede hoteleira que sempre promovam campanhas de conscientização com seus hóspedes para explicar que o sargaço que está na praia não é sujeira, até que esteja em seu estado de decomposição e que a prefeitura faz a limpeza das praias regularmente” – explica Maurício.

Sargaço é luxo, não lixo

Como todo mito só pode ser desfeito pelo conhecimento, muita gente não tem ideia de que o sargaço é um benefício deixado de herança pelo mar. Em uma pesquisa realizada em 2008 pela professora Élica Guedes e seus alunos da Ufal, foi constatado que as algas expulsas pelo mar podem servir de adubo orgânico se submetidas a um simples procedimento.

“Nós recolhemos várias amostras de sargaço e outros tipos de algas que são levadas pelo mar à costa e levamos para o ICBS. Depois as secamos ao sol em telas de nylon suspensas e as lavamos com água corrente durante o período de uma semana para a remoção do sal. Ao final destes dias, os vegetais foram submetidos a uma estufa a 450 graus durante 24 horas. Em seguida foram trituradas em uma máquina forrageira para posterior utilização como adubo orgânico incorporado ao solo” – relembrou a pesquisadora.

Após o preparo do adubo orgânico a base de algas, o próximo passo foi fazer uma experiência de plantio da moringa, uma espécie de árvore muito comum em climas tropicais e subtropicais nos continentes africano e asiático. Durante o manejo, Élica e seus alunos observaram, que apesar da mistura tradicional entre terra preta e esterco bovino ainda ser mais eficiente, a mesma mescla de areia com os vegetais marinhos produziram resultados animadores para o trabalho.

“O resultado foi satisfatório e apesar de um desenvolvimento mais lento, o adubo com algas se mostrou eficiente e além da moringa, também já fizemos experiências bem sucedidas com legumes como alface, cebolinha e coentro” – completou.

Projeto engavetado

Apesar dos bons resultados com a pesquisa elaborada, o grupo de pesquisa não recebeu nenhum tipo de apoio do poder público e nem da iniciativa privada para a continuação dos levantamentos. Muito pelo contrário. Quando ela procurou a Prefeitura de Maceió, na época, foi impedida de continuar coletando mais amostrar para avançar com seus trabalhos.

O projeto de Élica foi engavetado por diversos motivos, um deles foi a falta de recursos para desenvolver ainda mais sua pesquisa. Porém, ela ainda segue com esperanças de um dia voltar a trabalhar em mais projetos que possam avançar ainda mais em suas experiências com o sargaço e outras algas marinhas e provar para a sociedade que apesar de todo o preconceito que gira em torno desses vegetais, ter alga no nosso litoral é um grande luxo, jamais lixo.

*Estagiário

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