Papa Francisco presidirá o evento© Prensa Total/Flick Papa Francisco presidirá o evento

A tradicional assembleia dos bispos, que é convocada pelo chefe da Igreja Católica sempre que há 1 assunto específico a ser discutido com o clero, não tem interessado só religiosos e estudiosos do assunto, mas também o governo brasileiro.

Em agosto, o presidente Jair Bolsonaro admitiu que monitora o evento, alegando que há influência política nas discussões. A preocupação é de que as soluções apresentadas pelos bispos toquem, em alguma medida, na soberania nacional sobre a Amazônia.

Desde o início do ano, o general Augusto Heleno, ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), concedeu diversas entrevistas demonstrando incômodo com o tema do Sínodo. Em fevereiro, ele disse à Folha de S.Paulo que “quem cuida da Amazônia brasileira é o Brasil”.

“[O Sínodo] quer falar de terra indígena, quer falar de exploração, de plantação, quer falar de distribuição de terra. Isso são assuntos do Brasil”, reclamou. Na ocasião, o ministro ainda negou qualquer “espionagem” do evento por parte do GSI ou da Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

Em nota enviada ao Poder360, o GSI admitiu que “acompanha o tema demandado”, mas que “não há previsão de participação de representante do Governo neste evento”. De fato, o papa Francisco vetou a participação de quaisquer políticos com mandatos e militares no Sínodo.

50A manifestação do GSI, aliás, contradiz a declaração do General Heleno feita em fevereiro ao afirmar que “a expectativa é de que o Sínodo aborde, apenas, aspectos referentes à religiosidade e não tópicos relacionados com a soberania do Brasil”.

O texto também é contraditório com nota do próprio GSI divulgada em 10 de fevereiro, que afirmava que “parte dos temas do referido evento tratam de aspectos que afetam, de certa forma, a soberania nacional”.

Principais assuntos discutidos

Ao menos na teoria, a preocupação do governo com uma interferência da Igreja na soberania nacional é infundada. Isso porque, de acordo com artigos do Código de Direito Canônico, o Sínodo deve tratar de assuntos para “consolidar a incolumidade e o incremento da fé e dos costumes, a observância da disciplina eclesiástica”. Além disso, não compete à assembleia fazer decretos sobre os temas deliberados.

Na prática, porém, alguns assuntos de interesse exterior à Igreja foram inseridos no documento de trabalho produzido para embasar as discussões. O Instrumentum Laboris, publicado em 17 de junho, tem 21 capítulos divididos em 3 partes: “A voz da Amazônia”, “Ecologia integral: o clamor da terra e dos pobres” e “Igreja profética na Amazônia: desafios e esperanças”.

É a 2ª parte que pode preocupar o governo Bolsonaro. O texto menciona termos como a “destruição extrativista”. Outros temas como a migração, urbanização, família e comunidade, saúde, educação integral e corrupção.

No documento consta a proposta de que “se alterem os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la (Eucaristia)”. O documento também fala em garantir a “liderança” de mulheres nas comunidades.

Os temas citados, no entanto, não necessariamente serão levados em consideração pelo papa Francisco ou gerar alguma consequência prática na Igreja.

Na última semana do evento, os membros do Sínodo farão a redação final do documento. Ele não terá, porém, nenhum efeito jurídico.

Quem participará

Os participantes das reuniões serão bispos diocesanos das 9 províncias eclesiásticas da região pan-amazônica, incluindo o Brasil. Também participarão alguns membros a Cúria Romana e do conselho que prepara o Sínodo, além de membros da Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica).

Religiosos com trabalho pastoral desenvolvido na floresta e alguns leigos escolhidos pelo papa também estarão presentes. Alguns representantes de outras igrejas de denominação cristã e não cristã que atuam na Amazônia, além de líderes indígenas, também terão assento.

O relator do Sínodo é o cardeal Cláudio Hummes, presidente da Repam.