Foto: O Diário Nacional    Renan Calheiros

O alagoano também falou sobre o juiz Sérgio Moro, a Lava Jato e o Ministério Público Federal.

Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

Reeleição

Calheiros atribuiu à força do filho, o governador reeleito Renan Filho (MDB), o fato de ter sido um dos raros casos de político tradicional que conseguiu se reeleger: “Não foram os meus serviços prestados que prevaleceram. O que foi decisivo, diante da minha fraqueza e do que significou a política nesta eleição, foi a força do governador, que fez uma gestão transformadora”.

MPF

Para o senador, o ex-procurador Geral da República, Rodrigo Janot, utilizou toda a competência que o Parlamento deu ao MPF para perseguir o Senado: “Não vejo mérito na delação da JBS que ele produziu, nem em sua conivência com procuradores corruptos, como o Marcelo Miller, que sempre buscaram a impunidade. Isso ficou claro quando eles defenderam, no STF, o fim do foro privilegiado para o Congresso, enquanto o Senado votava uma proposta mais ampla acabando com todos os foros privilegiados. Por que o Janot não pode ser investigado? Pode, sim”.

Ele também creditou ao MPF a responsabilidade pelo resultado das urnas: “Quando fui ministro da Justiça, defendi os estímulos à delação premiada mesmo quando ela não existia na legislação. Presidi o Congresso quando essa instituição virou lei. Mas ela não pode ser uma jabuticaba, um mecanismo usado pelo preso para ter comutada sua pena e sair da cadeia. Ela precisa necessariamente produzir provas, não vazar e não comprometer o funcionamento das instituições. Acho que ela é importante para conter os desvios, porém não pode se exceder, sob o risco de permitir injustiças”.

Sérgio Moro

Sobre a indicação do juiz Sergio Moro para comandar o Ministério da Justiça no governo Bolsonaro, Calheiros disse reconhecer “muitos méritos” no magistrado, mas entende que, mesmo com essas virtudes, Moro pode cometer excessos.

“O caso do Lula, na minha opinião, é emblemático de erro do Judiciário numa clara tentativa de dificultar sua eleição. E eu tenho convicção de que um dia ele será reparado. Quanto à indicação, acho que Moro poderia ajudar o governo no sentido de lhe dar credibilidade, levar experiência.

Já se conhecem seus pontos de vista, concorde- se ou não com eles, e eu discordo de muitos. Acho que sua presença enriqueceria a democracia e colocaria um personagem novo na vida do Executivo nacional. Ele próprio também passaria a conviver mais com a política, que é uma vivência que talvez lhe falte”.

Bolsonaro  

“Também foi demonstrada, nesta eleição, a falência total dos partidos, que precisarão se reinventar para qualicar sua participação na vida nacional novamente. O Bolsonaro é consequência de tudo isso. Mas, ao mesmo tempo, ele é um estágio inevitável pelo qual iríamos passar”, pontuou, em outro trecho da conversa.

Calheiros disse ainda sobre o presidente eleito: “Espero que Bolsonaro, que já demonstrou uma fé muito grande em si mesmo, quando for capturado pela solidão do poder, o que é inevitável, como já vi no semblante de muitos presidentes, possa ter com o Legislativo, o Judiciário e a imprensa uma oportunidade para construir coesão e fazer o país avançar. Que ele tenha uma compreensão que lhe possibilite conviver com os outros poderes e entender o papel de cada um, sabendo que, quando um poder passa do ponto, geralmente um outro faz a revisão e reequilibra as coisas. Bolsonaro foi eleito graças, em parte, à pauta de segurança pública”.

Se as redes sociais mudaram o eixo da velha política?  respondeu: “Elas introduziram novos elementos, mas não se governa com mandatários virtuais. Por isso, é necessário que se tenha uma interlocução competente, que se construa uma convergência. Passada essa aridez da eleição, é preciso menos Twitter e menos palpite em Brasília e mais deputado e senador de carne e osso que entendam a complexidade do processo. O Executivo será cheado por um grupo que tem uma base virtual muito aguerrida. Concordo, mas acho que os desajos são grandes. Bolsonaro, que foi um extraordinário candidato, precisa agora conquistar a Presidência. Uma coisa é você ganhar a eleição, outra é conquistar a Presidência, entrar no coração das pessoas, imortalizar-se”.

Reformas

Na entrevista, o senador também reforçou sua defesa ao desarmamento, o voto em Fernando Haddad (PT) para presidente e disse que, uma reforma da Previdência com legitimidade não pode ser aprovada antes da renovação do Congresso: “Como vamos excluir agora uma renovação que saiu das urnas para antecipar uma votação para pré-datar uma crise e minar ainda mais a legitimidade do Congresso? Precisamos encerrar os mandatos e nos preparar para os novos tempos que virão com uma agenda que incorpore os interesses do Brasil, com a retomada da pujança de sua economia”.

Presidência do Senado

Calheiros também reafirmou que não cogita se candidatar à presidência do Senado e que só será candidato a reeleição para presidenca do MDB de Alagoas: “Eleição para o Senado é como eleição para escolher o papa. Quando se convocam os cardeais, sabe-se que dali vai sair um papa. E nunca acontece de ser aquele que chega proclamando-se candidato”.

*Com Revista Veja