Classificado como “o sobrevivente” pela Revista Veja,  o senador Renan Calheiros (MDB) – como fez das outras vezes  – disfarça, mas está de olho e trabalha nos bastidores para assumir mais uma vez a presidência do Senado Federal. As dificuldades existem, mas Calheiros sabe bem o que quer.

Ao seu favor, Calheiros, que credita sua reeleição ao filho e governo de Alagoas, Renan Filho (MDB), tem o fato do cenário no Senado Federal ser completamente diferente da Câmara. É que no Senado, a renovação não foi completa: 1/3 da Casa permanece e as “amizades” de Calheiros também.

Renan Calheiros sabe que não pode se anunciar candidato publicamente. Como bem colocou, em recente entrevista, quem se adianta já sai perdendo. O trabalho tem que ser feito por meio de costuras e longe dos holofotes. O senador, que tem aproximação com a oposição ao presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), espera colher os louros.

Tradicionalmente, o comando do Senado Federal é dado ao partido de maior bancada. O MDB, que tinha 19 senadores e agora terá 12, segue com esse posto. Um dos nomes que era cotado, Eunício Oliveira (MDB), não conseguiu se reeleger. Calheiros tem a tradição e o enxadrismo peculiar que exerce como pilares nessa jornada.

Porém, do outro lado, está um Executivo disposto a quebrar tradições. Na visão de aliados de Bolsonaro, a Constituição pode falar mais alto, já que ela prevê apenas que a composição da Mesa Diretora deve respeitar a proporcionalidade, garantindo lugar do MDB, mas não necessariamente a presidência.

Calheiros não é bem visto pelo governo de Bolsonaro. Primeiro: representa uma velha forma de fazer poítica, por meio de indicação de cargos, que o governo quer rejeitar. Segundo: é uma raposa que pode complicar a vida do Executivo conforme os interesses em jogo. Terceiro: já ocupou quatro vezes a presidência. Quarto: seu nome associado à Operação Lava Jato como investigado…enfim, motivos não faltam.

Sabedor do cenário, Renan Calheiros prefere o silêncio. O emedebista só colocará a cabeça na disputa se tiver possibilidade real de vitória, pois só entraria para ganhar. É de sua personalidade fazer o jogo no tapetão. Quem acompanha o processo eleitoral alagoano sabe bem disso.

Vale lembrar outro desafio de Renan Calheiros: se ele se tornar réu em algum dos processos da Lava Jato, pode ficar fora da disputa pela presidência do Senado Federal. É que a Constituiçã impede que um réu assuma a cadeira. A cautela de Renan Calheiros, na mais recente entrevista à Revista Veja, tem razão de ser.